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Folha
de São Paulo, Ilustrada, segunda-feira, 26 de dezembro de
2011

FOLHATEEN

Peneira para
músicos

De
rejeição em
rejeição, jovens que querem ser
músicos têm rotina dolorosa

RICARDO
MIOTO, EDITOR-ASSISTENTE DA “ILUSTRADA”

Funciona
como as
“peneiras” dos times de futebol: adolescentes sofrem para demonstrar
mais talento do que os concorrentes nos poucos minutos que
terão para se
apresentar aos “jurados”.

A
diferença é que,
em vez de chuteiras, Gabriel Takano Lui, 15, chega carregando um
contrabaixo
maior do que ele.

Com
pais músicos,
ele toca desde os seis anos, treina oito horas por dia e já
fez mais de dez
audições. Em uma delas, entrou para a Orquestra
Jovem do Estado de São Paulo.


duas semanas,
ele participou de uma banca para pleitear uma bolsa de estudos na
Alemanha.
“No exterior é mais seguro. Aqui no Brasil vivem dizendo que
as orquestras
vão acabar…”

O
resultado sai
apenas em março. No ano passado, nenhum instrumentista
brasileiro foi
selecionado.

A
peregrinação de
jovens como Gabriel, de audição em
audição, virou até tema de
documentário.
“Prova de Artista” foi lançado no fim de novembro pelo
diretor José
Joffily, 66.

“Quando
comecei a filmar, a ideia nem era fechar o foco nas
audições. Mas então vi como
elas são tensas. A audição
é, de certa forma, como um matadouro: o jovem indo
em direção ao abate, sabendo que, de cada dez
candidatos, somente um será
selecionado, se for”, diz ele.

“Esses
músicos são todos muito nômades, ficam
pesquisando na internet em qual canto do
mundo vai ter uma audição e vão
tentando.”

Foi
exatamente o
caso da canadense Yuri Sinto-Girouard, 26, que toca viola. Aos 23, ela
veio ao
Brasil tentar uma vaga na Osesp (a Orquestra Sinfônica do
Estado de São Paulo,
a principal do país).

“Fui
recusada. Eu não tinha maturidade suficiente. Faz parte.”
Não foi o fim do
mundo: hoje, ela está na Academia da Filarmônica
de Berlim, uma das principais
orquestras do mundo.

O
feito dela é
digno de nota. Sabine Lovatelli, presidente do Mozarteum Brasileiro,
organização que promove espetáculos e
trás grandes músicos estrangeiros para
dar aulas a brasileiros, fez as contas. Ela estima que de cada mil
jovens que
participam dessas aulas, apenas um será selecionado para
estudar em uma grande
orquestra como a de Berlim.

“As
audições
são bem cruéis. Nem todo mundo está
preparado para abrir o coração e tocar na
frente de gente que nunca viu. Pode ser injusto, pode pegar o jovem em
um dia
ruim…”

Ainda
assim, as
audições permitem que jovens músicos
de famílias pouco abastadas tenham
oportunidade de viver melhor do que seus pais.

Foi
uma audição
que levou Wellington Rebouças Guimarães a entrar
na Orquestra Experimental de
Repertório. Aos 20 anos, ele recebe cerca de R$ 2 mil por
mês para tocar
violino. “Ganho mais do que meu pai, que é
segurança”, diz. Antes,
foi também através de uma
seleção que ele pôde estudar na Escola
de Música do
Estado de São Paulo, que é gratuita.

É
o caminho que
Lucas Bernardo, 16, também quer trilhar. Filho de
caminhoneiro, ele começou a
tocar violino na igreja aos nove anos. Agora, também tenta
uma bolsa de música
clássica na Alemanha.

Os
amigos admiram o esforço, mas têm gostos um pouco
diferentes. “Lá na Penha
[zona leste], onde eu moro, o pessoal gosta mais mesmo é de
tocar punk
rock”, ri.


Categorias: Música

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