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FOLHA DE SÃO PAULO – 27/06/2019 – SÃO PAULO, SP

Por que o tradicional colégio Bandeirantes, que completa 75 anos, decidiu mudar?

LAURA MATTOS

Transatlântico que deixava para trás aqueles que caíam no mar passou a resgatá-los

Um maratonista que lidera a prova confunde-se com a linha de chegada e para antes. Você está em segundo lugar e pode avisá-lo do equívoco ou aproveitar para vencê-lo. O que faz? A questão foi colocada para candidatos às vagas da faculdade de medicina do Albert Einstein. Criada em 2015, a graduação ligada ao hospital de São Paulo, além das provas tradicionais, utiliza entrevistas na seleção de seus novos alunos, com o intuito de avaliar habilidades como comunicação, empatia, ética e pensamento crítico.

Além desse, são conhecidos dos vestibulandos da classe AA pelo menos outros dois processos seletivos de universidades concorridas que aplicam dinâmicas semelhantes, o da Fundação Getúlio Vargas e o do Insper. Esses testes devem passar de exceção a regra, e, nos colégios, já virou moda a palavra “holística” como meta de uma formação que desenvolva variadas aptidões do aluno, visto como um “ser humano”, outro termo em voga. Um exemplo claro dessa movimentação se dá no Bandeirantes. O tradicional colégio do Paraíso, na zona sul de São Paulo, que completa 75 anos, ganhou notabilidade pelo alto índice de aprovação de seus alunos nas melhores universidades.

A pressão para que o estudante aprenda o conteúdo e a competitividade pelas melhores notas tornaram-se marcas do colégio, muito procurado décadas atrás por imigrantes, em especial japoneses, que queriam garantir para os filhos ascensão social e econômica por meio do ingresso nas principais universidades, de preferência a USP.

Um médico que foi aluno do Band nos anos 1980, tempo em que meninas e meninos ainda estudavam em turmas separadas, o compara a uma “academia militar”. Formado pela Universidade de São Paulo, ressalta “o orgulho por ter passado” pelo Band e por ter “sobrevivido”. Seu depoimento está na tese de doutorado da USP feita por Hiromi Shibata, ex-professora do Band e atual docente na faculdade de educação da Unip. Ao relatar a história do colégio, ela menciona o tempo em que imperava a meritocracia e aponta um sopro de mudança cerca de dez anos atrás, com a revisão de uma metáfora famosa entre os professores: o Band, que sempre havia sido um transatlântico que deixava para trás aqueles que caíam no mar, passaria a resgatá-los.

Como a rota de um navio muda lentamente, só no passado se formou a primeira turma que não havia sido dividida em salas de acordo com as notas das provas, como era regra. Ao misturar estudantes com desempenhos diferentes, o colégio percebeu um ganho no aprendizado, segundo Mayra Ivanoff, que assumiu a direção pedagógica em 2017. Isso favoreceu a troca de conhecimento entre os pares e uma maior riqueza nos debates, o que é, a diretora ressalta, “essencial nesses novos vestibulares”. Não só para as instituições de ponta do Brasil, aliás, como para as estrangeiras —no ano passado, cerca de 10% dos formandos foram aceitos em 91 universidades de países como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Portugal, França e Austrália, seguindo a tendência das classes sociais mais altas de procura por graduações no exterior.

Por anos na lista dos colégios categorizados como conteudistas, aqueles que se concentram em ensinar o conteúdo, o Band adotou metodologias há não muito tempo tidas como alternativas: a lousa está em extinção, os alunos se sentam em círculos, trabalham em grupos e ministram aulas. No ano passado, inaugurou um coworking para que os professores desenvolvam em conjunto projetos interdisciplinares.

Além de ter de atender às aspirações das universidades, que são consequência das demandas contemporâneas do mercado de trabalho e da valorização do empreendedorismo, as escolas tiveram de enfrentar uma crescente complexidade de questões ligadas à infância e à adolescência. Uma ou outra aula não mais bastavam para lidar com bullying, uso de drogas, abuso sexual, ansiedade, depressão etc.

O Band, que na década 1990 deu início, com palestras, a programas de convivência, há quatro anos formou equipes de ajuda no ensino fundamental em que os próprios estudantes dão apoio a colegas. No ano passado, após a traumática semana de abril na qual dois garotos do ensino médio se suicidaram, teve início entre os adolescentes um projeto batizado de Care (Comissão de Apoio Racional e Emocional), em que os alunos são protagonistas de ações que oferecem acolhimento a quem necessita.

O protagonismo do estudante, aliás, outra grande tendência na educação, é uma das bases do sistema de autoavaliação implementado no Band neste semestre. As notas que os estudantes atribuem a si próprios se somam às dos professores, em um processo de troca de impressões. Para a escola que expulsava aqueles que repetiam de ano duas vezes, é uma guinada e tanto no leme.

O rumo que o Band e outros particulares estão tomando antecipa exigências da Base Nacional Comum Curricular, a BNCC. Política nacional que intenciona equiparar, na rede pública e privada, o conteúdo mínimo ensinado em cada ano escolar, também estabelece o desenvolvimento das chamadas competências socioemocionais, exatamente aquelas que os novos vestibulares exigem. O prazo para adaptação no ensino médio é 2021, a partir de quando o Enem deverá ser reformulado.

É difícil crer, no entanto, que as escolas públicas conseguirão tão cedo dar conta do recado, quando acumulam resultados negativos nos propósitos mais básicos da educação. Entre tantos dados que não faltam para demonstrar o que todos sabemos, neste ano o Saresp, exame que avalia as escolas estaduais de São Paulo, concluiu que 94% dos formandos do ensino médio estão abaixo do nível adequado, sendo que, em português, têm desempenho esperado para o 9º ano. Mais fácil ser protagonista nessa realidade ou no Band (R$ 4.198 de mensalidade no ensino médio), na economia do Insper (R$ 4.730), no direito da FGV (R$ 5.500) e na medicina do Einstein (R$ 7.450)?

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