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Folha de São Paulo, Ciência e Saúde, DOMINGO, 9 DE MARÇO DE 2014

Profissão arqueólogo

Exigência de laudo arqueológico para obras
de construção cria demanda por especialistas, mas faltam cursos universitários

FERNANDO TADEU MORAESDE
SÃO PAULO

Poucas atividades são tão romantizadas e
associadas a aventura quanto a dos arqueólogos. Recentemente, no entanto, a
profissão vem adquirindo um novo status com a chamada arqueologia preventiva,
uma decorrência da aplicação mais frequente da legislação ambiental.

Diante da exigência de laudos arqueológicos para
obras públicas e privadas de vulto (como hidrelétricas, rodovias e linhas de
transmissão) e em locais de potencial histórico (como cidades antigas), o
mercado de trabalho para o arqueólogo cresceu exponencialmente nos últimos anos.

Esse aumento pode ser medido pelo número de
portarias de autorização de trabalho arqueológico emitidas pelo Iphan (Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Desde 2000, há um crescimento
quase contínuo do número de portarias emitidas. Apenas no ano passado foram
1.453.

Segundo Roberto Stanchi, coordenador de pesquisa
arqueológica do Iphan, em 2013, 99% das autorizações emitidas pelo órgão se
referem a estudos para empreendimentos econômicos. O 1% restante se refere a
pesquisas eminentemente acadêmicas.

A demanda crescente do mercado valorizou muito a
profissão nos últimos anos, mas há um obstáculo: o número insuficiente de
arqueólogos, muitos deles, com formação precária.

O Estado de São Paulo, onde se concentram cerca
de 18% de todas a portarias do Iphan, não possui, por exemplo, um curso de
graduação em arqueologia.

Por iniciativa de professores do MAE (Museu de
Arqueologia de Etnografia) da USP, foi proposto, há dois anos, um bacharelado em
arqueologia. A USP ainda estuda a criação do curso.

Segundo Astolfo Araújo, professor do MAE e um
dos defensores do novo bacharelado, sempre que se aventava a criação de uma
graduação em arqueologia, a justificativa para a resposta negativa era a de que
não existia mercado para o formado. "Agora não existe mais essa justificativa.
Pelo contrário, a não existência de um curso de arqueologia em São Paulo é
deletéria", afirma.

Araújo explica que a formação em arqueologia no
Estado é toda feita na pós-graduação. "Entram no mestrado pessoas das mais
diversas áreas e, com uma carga horária de apenas 240 horas, o equivalente a um
semestre da graduação, e uma dissertação, alguém pode receber o título de mestre
e ser reconhecido como arqueólogo".

Fora de São Paulo a situação não é muito melhor.
A maioria das graduações é recente e algumas nem formaram suas primeiras turmas,
como na UERJ e na UFMG. O país todo conta atualmente com 12 graduações na área.

MERCADO

Donos de empresas reclamam da dificuldade para
compor equipes arqueológicas e da escassez de bons profissionais no mercado.

"Faltam arqueólogos e, principalmente, bons
arqueólogos", diz Renato Kipnis, um dos diretores da Scientia Consultoria.
"Vemos que com arqueólogos novos, a formação deles acaba se completando durante
o trabalho de campo nas empresas", diz.

Para Paulo Zanettini, diretor da Zanettini
Arqueologia, deve haver um equilíbrio na formação dos novos profissionais. "A
universidade não pode se submeter ao mercado, mas também não pode se dissociar
dele."

Entre as deficiências, estão a pouca experiência
de trabalho de campo, pouco conhecimento de áreas como a geomorfologia (estudo
sobre a formação e evolução do relevo) e a análise de materiais líticos (pedras
lascadas ou polidas) e desconhecimento da legislação ambiental.

Apesar da grande procura atual por arqueólogos,
Zanettini lembra que o mercado de trabalho ligado à arqueologia preventiva está
sujeita às oscilações da economia global e da continuidade da tendência de obras
do governo.


Empresa punida patrocinou nova sede de museu

DE
SÃO PAULO

Uma
das razões para a criação do bacharelado em arqueologia da USP é a nova sede do
MAE (Museu de Arqueologia e Etnografia), que deverá abrir no ano que vem. É a
primeira vez que o museu terá uma sede pensada para esse fim –e não prédios
adaptados, como aquele onde fica.


Ironicamente, a nova sede é fruto de um dano ao patrimônio arqueológico.

O
imponente edíficio Pátio Victor Malzoni, na avenida Brigadeiro Faria Lima, foi
construído em um terreno que abrigava uma casa bandeirista construída no século
18. Os trabalhos se iniciaram sem pesquisa arqueológica prévia.

A
obra foi embargada e no final de 2010 foi assinado um TAC (Termo de Ajuste de
Conduta) em que a incorporadora Brookfield, que liderava o empreendimento, se
comprometeu a construir o novo museu. O projeto é do arquiteto Paulo Mendes da
Rocha.

"O
termo foi assinado visando a compensação dos danos que haviam sido causados",
diz o procurador da República Adílson Prudente do Amaral Filho, que acompanha o
cumprimento do termo.

A
Brookfield informa que o TAC firmado pela empresa e o Ministério Público Federal
teve como objetivo preservar o patrimônio arqueológico encontrado no terreno na
avenida Faria Lima. (


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