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 UOL EDUCAÇÃO – 26/06/2019 – SÃO PAULO, SP

Quem se importa com o menino que batia na menina?

LEANDRO BEGUOCI

Sem aprendizagem, a escola é apenas um prédio de assistência social

Uns anos atrás, durante uma reunião de trabalho, eu e alguns colegas assistimos a um vídeo gravado em uma escola pública no interior do Ceará. Eram meus primeiros meses trabalhando em educação.

“Eu era um menino levado. Batia nos meninos, batia nas meninas”, dizia o rapazinho, rindo de canto. “Eu tinha muita raiva, sabe? Não sabia ler, não sabia escrever, não conseguia ler as letras”, continuava ele, agora mais sério. “Aí eu bagunçava na aula, batia em todo mundo. Até que veio a professora e conversou comigo. Ela me prometeu, disse que eu ia aprender a ler. Eu disse pra ela que eu era burro, que não ia aprender, não. Mas eu aprendi, eu aprendi, acredita?”, e a tensão se desfazia num sorriso aliviado.

Quando o menino falou isso, a professora invadiu o vídeo e deu um abraço no rapazinho prestes a sair da infância. Meus colegas de trabalho começaram a chorar. E até uma pessoa meio insensível, como este que vos escreve, deixou escapar uma lágrima torta.

Retomo esse vídeo por causa de uma entrevista recente do professor José Francisco Soares, ex-presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) e atual membro do CNE (Conselho Nacional de Educação). Especialista em avaliação educacional, Soares desenvolveu uma série de indicadores sobre desigualdades no ensino público. O objetivo é mensurar o quanto estamos privando as pessoas mais pobres de uma educação de qualidade.

À Nova Escola, Soares disse: `Por que é que a gente não tem tido sucesso na desigualdade? Vários motivos: um deles é que a gente não está chamando a atenção para isso. Então, todo o esforço que está sendo feito é para dizer duas coisas: qualidade é nível e qualidade é pouca desigualdade entre as pessoas. A realidade educacional só é possível de ser descrita se você vê essas duas dimensões”.

Ele reconhece que o Brasil avançou muito no acesso à escola e, em muitos lugares, também progrediu em qualidade. Porém, o Brasil ainda educa melhor quem já tem mais oportunidades —e é bem menos generoso com nossos estudantes mais pobres (embora a situação esteja melhorando por causa do trabalho de Estados como Ceará e Pernambuco).

Diante desse cenário, Soares defende que o debate público deve focar em aprendizagem para combater as desigualdades. É um avanço e tanto diante do atual cenário, dominado por discussões inúteis sobre assuntos irrelevantes.

E, nesse ponto, Soares compra briga não apenas com a extrema direita, ao falar de desigualdade. Ele também enfrenta uma parte da esquerda educacional, que detesta avaliações padronizadas. Esses setores entendem que as avaliações em larga escala reduzem os alunos a um indicador e produzem o efeito de educar para a prova. Embora exista verdade nessa crítica, ela geralmente superdimensiona os efeitos negativos e subestima os avanços.

Continua Soares: `Quando o Saeb [sistema de avaliação de alunos no Brasil] se estabeleceu como programa nacional, qual foi a batalha que foi ganha? Foi a batalha do resultado, ou seja, nós passamos a acreditar que Educação tem resultados. E em setores grandes da educação, eles continuam não enfatizando resultado. A minha maneira de ver é muito simples: eu falo que o resultado é o outro lado do direito. Se não houve aprendizado, não me diga que houve direito. Essa foi uma batalha importante. Agora, vencido isso, nós temos que olhar as dimensões desse direito e dizer: `olha, esse direito é para todo mundo`”.

A frase “o resultado é o outro lado do direito” é muito poderosa. Sem mensurar a aprendizagem das crianças, não temos como intervir. Sem intervenção, muitos outros meninos vão continuar batendo nas meninas.

Quando chegamos a esse ponto, a escola deixa de ser um lugar em que as pessoas vão para desenvolver a sua potência. Ela vira somente uma instituição de assistência social. É um trabalho importante, ainda mais num país com tanta gente pobre. Porém, é insuficiente.

Afinal, hoje, muitos meninos vão acordar de manhã. Eles vão andar pela cidade e serão incapazes de ler uma placa na rua. Vão ter muita raiva, e com razão. Isso não é justo nem com ele nem com a sociedade, que será privada de todo o potencial que aquela pessoa tinha a oferecer para a nossa comunidade. Num cenário tão conturbado como o atual, precisamos focar no essencial. No fim do dia, é a vida de crianças como o menino do Ceará que está em jogo.

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