Portal Exame, 26/08/2010

Os conselhos de um headhunter para uma
carreira de sucesso

Em entrevista, o
especialista em recrutamento Marcelo Mariaca ensina estratégias para conquistar
os melhores empregos

Talita Abrantes

São Paulo – Quer conseguir o
emprego dos sonhos? Então, mande uma carta (daquelas de papel, lembra?) ao CEO
da empresa. Esse é apenas um dos 65 conselhos reunidos no livro Erre Mais!
(Editora Campus) do headhunter Marcelo Mariaca. Aos
65 anos, ele é considerado um dos
principais caça-talentos do país. Há vinte, dirige a consultoria de recrutamento
Mariaca, que tem clientes como Natura, AmBev e Unilever. Mas já atuou por 12
anos como vice-presidente da subsidiária latino americana da DuPont e
           ocupou a posição de presidente da
Black & Decker do Brasil. Com base nessa experiência, Mariaca contou com
exclusividade para o Site Exame quais as melhores estratégias para construir uma
carreira bem-sucedida. E, alertou: não tenha medo de se arriscar.

Exame: Em seu livro, o
senhor defende que as pessoas devem lidar melhor com o erro na carreira. Tendo
em vista casos como do nadador César Cielo, que no último fim de semana perdeu
uma competição e ficou muito abalado, por que as pessoas têm tanto medo do
fracasso?

Marcelo Mariaca: Ao
longo dos séculos, a vida nos ensinou a evitar o erro. Desde os tempos de
escola, aprendemos que errar nos trazia consequências muito negativas. Mas há
uma diferença entre erro por desleixo e erro por atuar em uma área desconhecida.
Comparo nossa carreira com o trabalho dos cientistas. Há uma série de erros
programados para eles chegarem ao certo. Por isso, é muito positivo que as
pessoas não tenham medo de errar ao explorar ou experimentar novas situações na
vida.

Exame: O senhor defende que
os profissionais devem estar prontos para se adaptar e abrir o leque de opções.
Mas, no livro, também alerta sobre a dispersão. Como abrir o leque sem perder o
foco da sua carreira?

Mariaca: É preciso
equilíbrio. A ideia não é jogar currículos de um helicóptero ao meio-dia no
Parque do Ibirapuera. Mas também não é ter apenas 13 contatos em sua rede de
relacionamento. Os profissionais precisam de, pelo menos, algumas centenas de
contatos interessantes em sua área de atuação. Para conseguir um bom emprego, é
preciso enviar cartas e currículos para umas 300 empresas. Só assim você poderá
fazer com que os dirigentes das empresas conheçam você e ofereçam boas ofertas.
No entanto, é necessário uma boa justificativa para manter essas 300 companhias
em sua lista alvo.

Exame: Quando escolheu o
Brasil para morar, o senhor enviou cartas a 3 mil CEOs demonstrando sua
disponibilidade para atuar no país. Hoje, o senhor enviaria tantos currículos?

Mariaca: Talvez eu
faria de uma maneira mais focada. Eu era jovem e ainda não sabia totalmente onde
estava meu potencial. Mas graças ao leque aberto, eu recebi muitas ofertas de
emprego. E uma muito boa proposta para dirigir a subsidiária da Black&Decker no
Brasil. Mas, para isso, precisei fazer um alto investimento. Contratei os
serviços de uma empresa de secretariado que, durante um ano, datilografoi todas
as cartas. Hoje, com a informática, seria muito mais fácil.

Exame: Apostar em muitas
empresas e depois ter que recusar algumas propostas não pode acabar “queimando o
filme do candidato”?

Mariaca:
Definitivamente não, desde que sejamos educados e cordiais. Nós somos donos de
nossa carreira. Às vezes, o brasileiro tem uma visão muito paternalista. Mas
ninguém pode esperar que a proposta de emprego seja sempre aceita pelo
candidato. Quando vim para o Brasil, também recebi uma oferta da DuPont para ser
diretor financeiro. Mas meu foco era ser o diretor geral de uma empresa no
Brasil. Por isso, e com essas justificativas, recusei. Mas mantive o
relacionamento. Logo que cheguei ao Brasil, me apresentei ao presidente local da
DuPont. Nós marcávamos almoços esporádicos. E, em três anos, fui convidado para
assumir o posto de vice-presidente da companhia na América Latina.

Exame: Um dos capítulos tem
o título “Aprenda com a Geração Y”. Mas o que não aprender com esses jovens?

Mariaca: O
desprendimento. Essa é uma geração que foca muito no crescimento e não tem muita
paciência para esperar por ele. Sabemos que não é bem assim. Devemos deixar
claro quais são as nossas ambições, mas não devemos ser demasiadamente
impacientes. Por outro lado, é muito positivo o fato desta geração estar pronta
para encarar riscos. Mas é importante lembrar que temos que aprender com os
jovenzinhos e não necessariamente imitá-los.

Exame: É melhor começar a
carreira em uma empresa grande ou em uma de médio e pequeno porte?

Mariaca: Entrar em um
programa de trainee é “ouro líquido” para um profissional. É uma boa maneira
para que pessoas com uma boa formação chamem muito a atenção. Mas para dar
continuidade à carreira as empresas menores são boas opções. Com uma boa
experiência em outras companhias, é possível conseguir cargos mais altos ou até
assumir a posição de sócio. Isso dá uma perspectiva diferente para o futuro.

Exame: O senhor menciona
que as pessoas subestimam o próprio nível de inglês. Como avaliar se o seu
domínio do idioma é suficiente para o mundo dos negócios?

Mariaca: Não precisa se
preocupar com um sotaque perfeito. O ambiente corporativo não pede a fluência de
um nativo. Para se considerar fluente no inglês global, é preciso saber falar ao
telefone, enviar e-mails e viajar com autonomia. Mas nunca pare de estudar.

Exame: Por que o senhor
sugere que as pessoas não devem se iludir com os cursos de MBA?

Mariaca: MBA não é
garantia de sucesso. Ele é um ingrediente muito importante, mas não é o único.
Ter isso no currículo não vai encobrir a sua deficiência em outros aspectos.

Exame: Se a gente pudesse
resumir o seu livro em uma palavra eu diria que esta palavra seria
pró-atividade. Como desenvolver essa habilidade?

Mariaca: Desenvolvendo
sua educação acadêmica e cultural. O mundo está mais competitivo a cada dia. Se
você preparar sua formação educacional para encará-lo, estará pronto para ser
proativo. Mas ainda é necessário auto-estima e ousadia para buscar que as
empresas descubram que você existe. Por isso, eu aconselho que, na era do
e-mail, os profissionais enviem cartas aos CEOs. E, no dia da entrevista, não
esperem mais do que trinta minutos pelo recrutador. Deixe o cartão e o currículo
com a secretária de maneira cortês, mas não tome um chá de cadeira. Antes de
qualquer coisa, é preciso respeitar a você mesmo.

 

 


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