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Folha de São Paulo, Dinheiro, domingo, 21 de junho de 2009


Bolsa encerra 119 anos de grito
no pregão

Em meio à crise nos mercados, operação eletrônica substitui pregão
viva-voz e extingue o emprego de 90 operadores

Profissionais afirmam que não foram comunicados oficialmente; no auge,
mercado chegou a ter 2.600 na negociação dos contratos

TONI SCIARRETTA, DA REPORTAGEM LOCAL

Uma história de 119 anos de operadores de pregão que ganham a vida,
literalmente, no grito chega ao fim no dia 30, data do último pregão viva-voz da
BM&FBovespa, Bolsa que já passou a de Nova York e se tornou a quarta maior em
valor de mercado no mundo.

Em meio à crise, as redes de computadores da Bolsa substituirão os últimos
90 operadores de pregão, profissionais experientes, a maioria tem entre 35 e 40
anos, com salários que vão de R$ 6.000 a R$ 15 mil e que terão agora de mudar de
ramo, como aconteceu com operadores de telégrafo, datilógrafos e taquígrafos.

Só 2% dos negócios com o Ibovespa futuro (contratos com base no índice da
Bolsa de SP) seguem no viva-voz; todos os demais são eletrônicos. A Bovespa
encerrou o viva-voz para ações em 2005.

Independentemente do talento individual para ganhar dinheiro, esses
profissionais foram tornados obsoletos pelo avanço da tecnologia. Enquanto os
computadores da Bolsa são capazes de processar até 700 ordens por segundo, um
operador demora de dois a dez minutos para fechar e registrar um único negócio.
A rede acessa mais de 100 mil investidores em todo o mundo.

O elemento humano traz ainda riscos praticamente inexistentes entre redes
de computador, como erros de digitação ou mesmo fraude (privilégio de uma
contraparte em detrimento de outra).

A dez dias do fim do pregão, a maioria dos operadores afirma que não sabe
onde se apresentará no dia seguinte à extinção do trabalho na Bolsa. Eles ainda
negociam seu destino com os empregadores, mas ninguém tem esperança de ser
aproveitado nas mesas de operação eletrônica. O salário dos gerentes de mesa
costuma ser inferior ao dos viva-voz.

A BM&FBovespa afirma que o fim do pregão viva-voz não tem nada a ver com a
crise e que foi uma decisão tomada pelo mercado, que preferiu as vantagens e a
economia de custos do negócio eletrônico. "Essa decisão não é unidirecional da
Bolsa. Foi o mercado que começou a se concentrar no eletrônico", disse André
Demarco, diretor de operações da Bolsa.

"Nós fizemos o melhor pregão viva-voz do mundo, mas vimos que havia uma
tendência do mercado de migrar para o eletrônico. Foi um processo muito longo,
ninguém pode dizer que foi pego de surpresa", disse Manoel Félix Cintra Neto,
presidente da Ancor (associação das corretoras) e ex-presidente da BM&F.

O Sindicato dos Trabalhadores no Mercado de Capitais (ligado à CUT) afirma
que, em nenhum momento, a Bolsa comunicou o fim oficial do pregão. "Eles estão
deixando morrer aos poucos. Foi acabando contrato por contrato. Hoje, nós nos
tornamos um problema para as corretoras", disse Carlos Borges, diretor do
sindicato.

O auge do pregão viva-voz foi nos anos 90, época de sucessivas crises e
período em que o Brasil estava fora do radar dos investidores estrangeiros.
Àquela época, a Bovespa chegou a ter 1.400 operadores, e a BM&F, outros 1.200.

Reconhecido como um dos melhores de sua época, Raul Forbes, 69, estreou
como operador em 1966, quando os corretores usavam chapéu e colete. Forbes conta
que viu muitos assistentes de operadores assumirem posições de destaque nos
bancos e até fazerem fortuna. "Vi também pessoas quebrarem no pregão. Todo mundo
berrava ao mesmo tempo. Tinha de reconhecer de costas alguém que fazia uma
oferta."


Tradição resiste em Nova York

JANAINA LAGE, DE NOVA YORK

Com o
fim do pregão viva-voz em São Paulo, a Bolsa de Valores de Nova York será a
única entre as maiores do mundo a manter a tradição. Na crise, aliás, ela foi
revigorada.

Para
Raymond Pellecchia, vice-presidente de comunicação corporativa da Nyse, a
presença dos mais de mil operadores que trabalham no dia a dia do pregão ajudou
a minimizar os efeitos da instabilidade do mercado para os investidores.

De
acordo com Pellecchia, em momentos de incerteza, a presença do operador é um
diferencial. Mark Otto, operador que acompanha os mercados asiáticos, concorda:
"Um computador está programado para seguir padrões. Quando o mercado não está
operando de maneira racional, é o instinto humano que faz a diferença".

Para
concorrer com a tendência global de pregões inteiramente eletrônicos, os
operadores trabalham com sistemas informatizados. Um passeio pelo salão mostra
que já não há mais gritos de "compra" e "vende", mas olhares atentos a telas e
cliques rápidos para a seleção dos negócios.

"O
trabalho mudou, a automação é irreversível, mas ainda há espaço para o operador.
É como um piloto no avião, você pode voar no automático, mas na hora da
turbulência quer ter certeza de que há alguém lá para tomar as decisões", afirma
Alan Valdes, que trabalha há 30 anos na Nyse.


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