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O Estado de São Paulo, Edu.com, 28 de abril de 2012 | 23h 22

Engenharia de vida


Considerada uma das profissões do futuro, biotecnologia ganhou curso superior no
Brasil há apenas 11 anos; País se destaca em pesquisas em agricultura e energia

Carlos Lordelo, do Estadão.edu

A biotecnologia está na fronteira do conhecimento
humano faz tempo. Nossos ancestrais não sabiam, mas 12 mil anos atrás, quando
inventaram a agricultura, usaram procedimentos biotecnológicos rudimentares para
selecionar plantas e tipos de solo. A concepção moderna, porém, veio na esteira
das descobertas da biologia molecular e da genética. Ponto para Mendel e suas
ervilhas, que abriram o caminho para uma das profissões do futuro.

Antes de seguir com esta história, vamos ao conceito
de biotecnologia definido na Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, que
ocorreu no Rio há 20 anos: “É a aplicação tecnológica de sistemas biológicos,
organismos vivos ou derivados para criar ou modificar produtos ou processos.”

Ou seja, do desenvolvimento de antibióticos à
produção de bebidas, do uso de células-tronco para reconstruir tecidos à
aplicação de enzimas para degradar substâncias poluentes, o homem tem hoje um
arsenal de ferramentas microscópicas capaz de revolucionar o modo como vivemos.

“Usar a biologia para atender às nossas necessidades
é o caminho para a sustentabilidade humana”, resume o expert em computação,
genética e biologia sintética Andrew Hessel, professor da Singularity University.
Para ele, é preciso superar processos “velhos e crus” que existem desde a
Revolução Industrial, a exemplo de reações químicas com o uso de reagentes
tóxicos. “Esses processos foram bastante úteis, deram escala, funcionaram de
forma confiável, mas no fim das contas são bastante tóxicos. A vida faz muitas
dessas mesmas reações, mas de forma graciosa.”

Para quem quer fazer carreira em laboratórios, o País
tem se destacado principalmente na área de fontes de energia. O desafio atual
dos cientistas é obter o chamado etanol de segunda geração, a partir da
hidrólise (quebra) da parede celular da cana. Para isso, estudam modificações
genéticas visando a aumentar a qualidade das fibras.

“Só um terço da energia da cana está na sacarose que
obtemos ao espremer o caule. Um terço está na biomassa e um terço na palha, que
é descartada”, diz Marcos Buckeridge, coordenador do Instituto Nacional de
Ciência e Tecnologia do Bioetanol. “Mais que aumentar o rendimento, a ideia é
aproveitar melhor toda a planta, diminuindo os custos de produção.”

Chefe de vários projetos de transgenia animal e
vegetal na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o pesquisador Elibio Rech
acha que o Brasil deve explorar ainda mais a condição de grande exportador
agropecuário para introduzir tecnologia no campo e preservar a biodiversidade.
“Conhecendo melhor nossas plantas e animais, vamos poder produzir novas
moléculas e produtos, agregando valor à floresta.”

Além de aplicações na agricultura, na indústria e no
meio ambiente, o ex-presidente do CNPq Esper Cavalheiro destaca ainda a
relevância da pesquisa brasileira voltada à saúde. “O Instituto Butantã e a
Fiocruz são grandes produtores de vacinas. E temos outros centros importantes
pensando na cura de doenças degenerativas, como Parkinson e Alzheimer, e do
câncer, caso do Inca.”

O pesquisador do Inca Martin Bonamino, doutor em
Química Biológica pela Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estuda câncer desde a
graduação. Hoje ele avalia genes que poderiam educar o sistema imunológico para
reconhecer tumores. Também desenvolve vetores virais para transformação de
células adultas em células-tronco pluripotentes. “Na área da saúde, tem muito
espaço para pesquisa e dinheiro sendo injetado pelo governo”, diz.

Por falar em recursos públicos, Martin recomenda aos
estudantes e futuros universitários que aproveitem a oportunidade de conseguir
uma bolsa no exterior pelo Ciência sem Fronteiras. “Passar um tempo fora do País
é fundamental”, afirma. “Quando fiz estágio no exterior, durante o doutorado,
trouxe novos conhecimentos para meu laboratório.”

Formação

Hoje consultor do Centro de Gestão e Estudos
Estratégicos, Esper Cavalheiro vê com entusiasmo a criação de cursos superiores
para formar pessoal especializado. Para o cientista, é fundamental que as
universidades estimulem o aluno a desenvolver o espírito criativo e
empreendedor. “Talvez tenhamos surpresas muito boas pela frente.”

A primeira graduação começou a funcionar há 11 anos,
na Universidade Presidente Antônio Carlos, de Barbacena (MG). Segundo o MEC, em
2010 havia 22 bacharelados e 6 graduações tecnológicas.

A UFSCar, por exemplo, oferece dois cursos, em Araras
e em São Carlos. O primeiro enfatiza as áreas ambiental e agrícola. O outro é
voltado para biologia molecular. Sua primeira turma cola grau no fim do ano.
Sairá com uma formação multidisciplinar sólida, acredita o vice-coordenador do
curso em São Carlos, Anderson Ferreira da Cunha. Segundo ele, os alunos
frequentaram diferentes laboratórios e assistiram a aulas em vários
departamentos, como Física, Química e Computação.

“A formação em biologia molecular abre um mundo de
possibilidades”, diz. “Eles trabalham basicamente com a manipulação de DNA, o
que lhes permite atuar da indústria farmacêutica à de ração animal.”

No último ano do curso da UFSCar, Vanessa Munhoz, de
24 anos, prepara-se para escrever a monografia e o TCC. Depois ainda precisa
fazer seis meses de estágio obrigatório. Ela vai para uma usina de álcool
acompanhar a produção de levedura, resíduo da transformação da cana em etanol
que pesquisou na iniciação científica.

“A levedura é vendida para uma fábrica intermediária
que faz o tratamento enzimático da substância e depois a revende para a produção
de ração animal. Quanto mais RNA tiver a levedura, melhor o alimento para bois,
porcos e frangos. É como se eles precisassem comer menos para engordar mais”,
explica Vanessa. Simples, mas complexo. /

COLABOROU SERGIO POMPEU

Categorias: Biotecnologia

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