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O Estado de São Paulo, 12 de fevereiro de 2012 | 18h 43

Físico prevê nova onda do capitalismo em trinta anos


Para Michio Kaku, a onda será baseada em bio e nanotecnologia, e
telecomunicações

Carla Peralva, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Terminou no sábado, 11,  a quinta edição
da Campus Party Brasil, que foi realizada desde segunda-feira, no Parque Anhembi
em São Paulo. Se, no ano passado, os "campuseiros" – como são chamados os
participantes que acampam no evento – protestaram contra a queda de energia e de
internet, este ano as manifestações ocorreram por causa falta de segurança,
furto de equipamentos e roubo nas barracas.

No balanço final, no entanto, a edição fechou com
saldo positivo. "Aprendemos muito vindo para o Anhembi e conseguimos contornar
bem os problemas", disse Mario Teza, diretor geral do evento. Ontem, o grande
nome do dia foi Michio Kaku, um dos grandes nomes da física teórica, professor
da Universidade de Nova York, autor de nove livros e um dos autores da Teoria do
Campo das Cordas. Chamado de "o físico do impossível", foi considerado pela New
York Magazine uma das cem pessoas mais inteligentes de Nova York.

Em seu último livro, Physics of the Future, lançado
ano passado, Kaku faz previsões de como a ciência mudará o cotidiano das pessoas
e o curso da humanidade em 100 anos. Na Campus Party, se restringiu a fazer
projeções para os próximos 30 anos.

Foram muitas previsões. Algumas com cara de ficção
científica, como lentes de contato que projetam informações online no mundo
offline e uma loja de órgão humanos. Outras, mais possíveis de serem
vislumbradas: robôs enfermeiros, computadores descartáveis, vasos sanitários
inteligentes, chips que guardam a sequência de DNA de uma pessoa e sem câncer.

Nos próximos 30 anos, segundo Michio Kaku, uma nova
onda do capitalismo irá surgir e ela será baseada em biotecnologia,
nanotecnologia e telecomunicações. E essas áreas determinarão mudanças profundas
na economia mundial, na saúde dos seres humanos, no consumo, no mercado de
trabalho e, principalmente, na interação entre pessoas, máquinas e internet.

Ondas. Se no início do século XIX os cientistas
criaram a máquina a vapor e as locomotivas – e essas invenções levaram à
Revolução Industrial na Inglaterra e a uma época de muita riqueza e
prosperidade, explica Kaku – em 1850, a economia mundial colapsou e o mundo
entrou em uma época de depressão. Essa, diz ele, foi a primeira onda do
capitalismo.

A segunda foi marcada pela eletricidade e os
automóveis e culminou na Quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. A
terceira atingiu seu ponto mais baixo em 2008 e foi marcada pela alta tecnologia
– computadores, internet, inteligência artificial, geolocalização.

O físico então, se propôs a prever o que será a
quarta onda do capitalismo. Para ele, em 2020, o computador como o conhecemos
hoje terá sumido. "Estarão em todos os lugares e em lugar nenhum, como a
eletricidade".

Tanto computadores como internet estarão mesclados em
todos os tipos de aparelhos, como óculos ou lentes de contatos que identificam
pessoas com quem o usuário conversa e mostram informações biográficas sobre ela
ou ainda traduzem o que estão dizendo. Informações online serão projetadas no
mundo offline, mudando a forma do homem interagir com seu meio.

A casa do futuro, segundo Kaku, terá papel de parede
inteligente que será como uma tela de 360º, onde é possível acessar todos os
tipos de informação sem a necessidade de controles específicos, usando apenas
movimentos, a fala e o pensamento.

O computador chegará até ao banheiro, com vasos
sanitários equipados com chips que analisam proteínas da urina e alertam caso
algo esteja errado, sendo possível inclusive diagnosticar câncer por esse
método. "A palavra tumor não existirá mais no nosso vocabulário", diz Kaku.

Ressonância de bolso. E parece mesmo ser na área da
saúde onde a maior revolução se dará: os chips ficarão cada vez menores,
pequenos o suficiente para conter uma câmera e um localizador e caberão em uma
pílula e para criar aparelhos de ressonância magnética do tamanho de um maço de
cigarro, para ajudar no diagnóstico de doenças.

Entre as pesquisas atualmente em curso no campo da
medicina que serão comuns nas próximas décadas, Kaku cita nanopartículas capazes
de destruir s células cancerígenas uma a uma, CDs que carregam o código de DNA
de uma pessoa e que servirão como um manual de instruções de cada corpo, e chips
implantados diretamente no cérebro permitirão que deficientes recuperem
capacidades comunicacionais e motoras.

Kaku também diz que a "loja de órgão humanos" não é
uma realidade distante. Se hoje já é possível criar pele, bexiga, ossos e
células sanguíneas em laboratório, no futuro, criaremos qualquer tipo de tecido
a partir das células do próprio paciente.

Melhorias na saúde causarão um movimento já observado
muito claramente no Japão: o envelhecimento da população e a necessidade do
desenvolvimento da robótica para lidar com novas necessidades demandadas pelos
idosos.

QI de barata. Se, de acordo com Kaku, a robótica
ainda produz apenas robôs com o intelecto semelhante ao de uma barata, em 30
anos, teremos modelos com a inteligência equivalente a de mamíferos e capazes de
ajudar a cuidar de idosos.

Com robôs cada vez mais inteligentes, muda também o
papel do ser humano na cadeia produtiva. Somem os trabalhos repetitivos e de
mediação (atendentes, por exemplo) e criam-se tarefas que exigem criatividade,
imaginação, liderança e sensibilidade.

Começa assim uma nova fase do capitalismo, o chamado
capitalismo intelectual, quando, segundo Kaku, as economias mundiais serão
pautadas pelo índice de desenvolvimento intelectual que a população de cada
nação tem a oferecer para o desenvolvimento tecnológico.

Kaku acredita que veremos o surgimento do que ele
chama de "capitalismo perfeito", a conjunção sem falhas entre consumo e
informação – quando todo o consumidor saberá quanto custa, como foi produzido e
como está sendo taxado o item que decidiu levar para casa.

Se isso parece uma realidade muito distante? Não para
Kaku. "As nações sempre tentarão controlar as informações, mas elas estão
enfraquecendo ano após ano. Não há mais jeito de controlar a internet e a livre
troca de informações", afirma.


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