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Gazeta de Cuiabá, 29/11/2010 – Cuiabá MT

O Enem no exterior

Silio Boccanera

O debate no Brasil em torno do Enem e suas falhas motiva uma
olhada nas experiências de outros países com exames parecidos de avaliação dos
candidatos a cursar universidades. Os exemplos de Reino Unido, França e Estados
Unidos sugerem que o projeto brasileiro caminha na direção certa, apesar dos
tropeços ocasionais. Os percalços do Enem decorrem menos de sua concepção e mais
de seu gigantismo, resultado da insistência equivocada de candidatos e (alguns)
educadores em que um teste de avaliação desse tipo só é justo se aplicado de uma
só vez, com o mesmo conteúdo para quatro milhões de estudantes, no mesmo dia, na
mesma hora. A repetição da prova agora em dezembro, como resposta a erros de
impressão, teve de vencer forte resistência.

A teimosia em manter um Dia-D para todos amplifica os eventuais
erros (qualquer problema afeta logo 4 milhões de candidatos), ignora a técnica
moderna de preparar provas de conteúdo diferente mas valores equivalentes,
aplicadas em datas variadas, para grupos diversos de candidatos. O dia único
também impede o recurso – aceito em outros países – de um candidato pedir
revisão do resultado e refazer a prova. No Reino Unido, o acesso aos cursos
superiores depende das notas na prova conhecida como A-Level, feita na escola
habitual que cada um frequenta (o que reduz o grau de insegurança), mas de
acordo com um padrão nacional. Todo ano surgem queixas sobre detalhes, mas o
princípio básico de avaliar alunos e escolas por meio deste exame permanece.

Há dois anos, por exemplo, a prova equivalente ao Enem gerou
protestos no Reino Unido quando os resultados demoraram a sair. Muitos se
queixam dos métodos de correção dos exames, embora haja recurso para rever as
notas. E todo ano, sem falta, ouve-se um coro de que o nível está baixando, as
perguntas se tornaram fáceis demais e há inflação de notas altas. Em reação a
esta última queixa, foi criada este ano uma nova nota, mais alta do que a máxima
tradicional A, usada há tanto tempo. Existe agora o A-estrela, como se fosse, no
padrão brasileiro, uma nota 10 turbinada. Como resultado das críticas regulares,
o sistema passa por reformas constantes, com o objetivo de aprimorá-lo. Mas
continuam valendo ao menos dois princípios básicos: usar os resultados para
selecionar os estudantes candidatos ao ensino superior e avaliar as escolas. Nos
últimos anos do curso secundário, os alunos britânicos vão afunilando suas áreas
de estudo, selecionando as matérias que lhes interessam. Toda criança no Reino
Unido é obrigada a estudar até os 16 anos, sob ameaça de punição aos pais se os
filhos não forem à escola. É quando os alunos fazem as provas que levam ao
Certificado Geral de Educação Secundária ou GCSC. As matérias básicas e
obrigatórias são Inglês, Matemática e Ciência, mas os estudantes podem adicionar
optativas.

Quem segue em frente com os estudos pode escolher vários
caminhos. Seguir a área profissionalizante, com provas específicas para os
certificados apropriados – de mecânico a gráfico, por exemplo. O aluno tem ainda
a opção de buscar o certificado mais avançado, no último ano secundário, o
A-Level, com matérias ainda mais específicas, visando entrar para as
universidades. É o exame mais parecido com o Enem brasileiro. Com a diferença de
que o aluno pode escolher em quantas matérias quer ser testado, com um
mínimo          de três. Há quem reúna mais de dez áreas de provas, seja para
satisfazer a universidade, impressionar um futuro empregador ou agradar à
família. Pouco antes de fazer os exames do A-Level, aos 17-18 anos, o aluno
britânico contata as universidades que lhe interessam e candidata-se a uma vaga.
Cada caso é avaliado individualmente e a universidade, com base no curso que o
estudante pretende fazer, já informa ao candidato que notas vai exigir no
A-Level, e em quantas matérias. Se não obtiver as notas exigidas pela
universidade que preferia, o candidato pode ainda buscar vaga em outra
instituição menos exigente, num processo conhecido como clearing, uma espécie de
rescaldo.

Como era de se esperar, as universidades mais conceituadas e disputadas exigem
notas mais altas. Oxford e Cambridge, por exemplo, que estão entre as dez
melhores do mundo, pedem A ou o novo A-estrelado em todas as matérias. E ainda
impõem uma entrevista. Até recentemente, exigiam provas adicionais internas, mas
hoje os testes extras aparecem apenas em áreas muito específicas, como Medicina.
Oxbridge, como são normalmente tratados em conjunto os dois grandes templos de
educação no país, só deixam entrar mesmo um grupo muito selecionado de alunos. O
atual primeiro-ministro David Cameron estudou em Oxford. Seu vice Nick Clegg se
formou em Cambridge. Gordon Brown, Tony Blair, Margaret Thatcher, em Oxford. O
cientista Steve Hawking foi de Cambridge. Dos 688 mil que se candidataram este
ano, 480 mil entraram para algum curso superior. O número de candidatos às
universidades tem crescido no Reino Unido, mas a quantidade de instituições
também.

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