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Folha de São Paulo, Ilustrada, domingo, 09 de setembro de 2007


Sinfônica feminina une música
e vaidade

Uso excessivo de chapinha fez cair a energia elétrica na estréia da
Sinfônica Sopra Mulheres, de Tatuí, no interior de São Paulo

Grupo se apresenta em novembro no Memorial da América Latina e prepara
concerto com músicas que levam nomes de mulheres

JOSÉ EDUARDO RONDON, RENATA BAPTISTA, DA AGÊNCIA FOLHA, EM
TATUÍ

Antes da primeira apresentação oficial de uma banda
sinfônica formada apenas por mulheres, o teatro, lotado com 450 pessoas, quase
sofreu um apagão originado por um motivo tipicamente feminino: a energia
elétrica caía o tempo todo por causa do uso excessivo de chapinha pelas
integrantes do grupo, nos camarins.

"Todas nós ficamos disputando o espelho do camarim. A
força caía a toda hora", diz a percussionista Luana Oliveira, 19, ao se lembrar
da estréia da Banda Sinfônica Sopra Mulheres, no teatro Procópio Ferreira, em
Tatuí (137 km de SP), em 28 de junho deste ano. "Mas, apesar da vaidade, nosso
foco é a qualidade musical."

A banda é formada por cerca de 30 alunas, com idades
entre 15 e 39 anos, do Conservatório Dramático e Musical Doutor Carlos de
Campos, de Tatuí. O repertório vai do erudito ao popular: elas tocam peças
musicais como "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, "Cântico das Criaturas", de
Jim Curnow, e trilhas sonoras de filmes como "Missão Impossível".

No comando do grupo, a maestrina Cibele Sabioni, 31, diz
que essa é a única banda sinfônica da América Latina formada exclusivamente por
mulheres. "Não existe nenhum grupo efetivo, que ensaie toda semana, com uma
formação só feminina."

A idéia de formar a Sopra Mulheres partiu da tubista
Aparecida Madalena Ribeiro, 26, que apresentou a intenção ao maestro Antônio
Carlos Neves Ramos, diretor do conservatório (leia na página ao lado).

A Sopra Mulheres é um dos cerca de 50 grupos do
conservatório -o maior em ensino gratuito de música da América Latina, segundo a
direção. A entidade, com um orçamento em torno de R$ 17 milhões por ano, é
mantida pelo governo paulista. No local estudam 3.000 alunos.

Ensaio

A Folha acompanhou, na terça-feira, um ensaio da
banda no teatro Procópio Ferreira. Antes da prática musical, parte das
musicistas "tricota" nos camarins e revela detalhes da convivência do grupo.

A maioria das mulheres é de outras cidades e mora em
repúblicas ou no alojamento oferecido pelo conservatório. Quatro delas são de
outros países -duas do Peru, uma da Argentina e uma do Paraguai.

Algumas musicistas recebem bolsas de estudo de R$ 300
pelo trabalho em outras bandas ou orquestras. "Não pude solicitar bolsa para
elas no início do ano, pois não previ a criação da banda. Como o grupo está
tendo visibilidade, acho que não terei dificuldades em conseguir", diz o maestro
Neves, como é chamado pelas meninas o diretor do conservatório.

Para a trompetista Agatha Fernanda Gallo, 19, a
convivência em uma banda sinfônica apenas entre mulheres às vezes leva a
situações "estressantes". Em uma delas, a chegada de duas componentes com
vestidos iguais em uma apresentação causou constrangimento. "No final, ficou
tudo certo. Damos sempre muitas risadas."

"Melhor sem homens"

Na opinião da flautista Gilonita Pedroso, 22, as festas
e viagens são mais divertidas por estarem apenas entre garotas. "Passamos oito
horas dançando e cantando em um ônibus para uma apresentação no Rio de Janeiro.
Acho que se houvesse homens seria diferente. [Sem homens] Nós ficamos bem mais à
vontade."

A banda já se apresentou cinco vezes. Para outubro, está
prevista uma nova apresentação em Tatuí, e em novembro a Sopra Mulheres se
apresentará no Memorial da América Latina, em São Paulo. Até o momento, o grupo
não recebe nada pelas exibições.

"Estamos iniciando um trabalho e é muito gratificante
receber um convite e participar de eventos importantes", diz a maestrina. Para o
futuro, preparam um concerto com músicas que levam nomes de mulheres. "Lígia"
(Tom Jobim), "Maria, Maria" (Milton Nascimento) e "Rosa" (Pixinguinha) farão
parte do repertório.

Outra meta da Sopra Mulheres é a gravação de um CD e de
um DVD. Para isso, elas esperam contar nos próximos meses com patrocínios.

"Queremos tocar pelo Brasil, tocar no exterior,
representar as mulheres", afirma a maestrina Cibele Sabioni.

Frases


"Passamos oito horas dançando e cantando em um ônibus para uma
apresentação no Rio de Janeiro. Acho que se houvesse homens seria diferente.
[Sem homens] Nós ficamos bem mais à vontade"


GILONITA PEDROSO

flautista


"Sopro melhor e mais forte que muito homem"


APARECIDA MADALENA RIBEIRO

tubista

Idéia do grupo surgiu de falta de
oportunidade

DA AGÊNCIA FOLHA, EM TATUÍ

Cansada da falta de
oportunidade em outras sinfônicas, a tubista Aparecida Madalena Ribeiro, 26,
teve a idéia de criar uma exclusivamente com mulheres. A intenção foi encampada
pela direção do Conservatório Dramático e Musical Doutor Carlos de Campos, de
Tatuí.

"Tentaram a todo custo me
impedir de tocar tuba, mas eu estou conseguindo conquistar as pessoas com meu
som", diz Cidinha da Tuba, como é conhecida no conservatório. "Sopro melhor e
mais forte que muito homem." Ela nunca conheceu outra mulher que tocasse o
instrumento, que pesa cerca de 18 kg.

O talento rendeu a Cidinha o
papel de chefe de naipe (líder dos instrumentistas) dos tubistas em uma
orquestra do conservatório. "Comando outros quatro tubistas. Todos homens. E
exijo disciplina e dedicação."

Mãe de um menino de oito anos
que já toca trompete, Cidinha diz não conseguir viver com a bolsa que recebe do
conservatório, de R$ 300. Ela faz vários tipos de trabalho para aumentar a renda
familiar -de aulas particulares a participações em trilhas de filmes, como
"Cafundó" (2006), de Paulo Betti e Clóvis Bueno.

(RB e JER)


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